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Não escrevo mais poesia [Aug. 13th, 2005|12:56 am]
Não sei porque escrevo poesia.
Aliás eu não escrevo poesia

Sei apenas que esta noite havia luar
E música e crianças que brincavam
E vi poesia espalhada no olhar
De quem ainda sabe sorrir.

Não escrevo poesia
Tal como não escrevo beijos
Tal como não escrevo amor

Os beijos não se escrevem
Dão-se.
Sem palavras. Em silêncio.
O amor não se escreve.
Vive-se à flor da pele.

Não escrevo mais poesia.
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Retratos [Jul. 17th, 2005|07:32 pm]

nos dias em que nos procuramos no fundo de nós...o que vemos?

Transforma a tristeza
em música.
Usa a linguagem universal das notas em clave de Sol.
Faz do sal das minhas lágrimas
o gozo doce do teu gosto.

Não vejas para lá de mim,
hão olhes para as transparências que finjo,
não me acordes do pesadelo.

Entra no meu retrato
e transforma-te em mim.




Fotografia do Efe
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Kiss, bliss, beijo que rima com queijo. [Jul. 11th, 2005|10:42 pm]
Fale-se de um beijo. Descreva-se um beijo. Sinta-se um beijo.
Na boca, um beijo na boca daqueles que nos param a respiração.
Na boca, um beijo na boca que nos faz pensar que nos estamos a afogar.

Um beijo, na boca.
De olhos fechados mergulhamos no som que nos eleva.

Um beijo. Na boca. Na boca um beijo. Mergulho, sufoco, encho os pulmões de ar. Fecho os olhos e beijo-te na boca.
Abro a alma e beijas-me na boca. Um beijo só um beijo. Na minha boca.

Oiço-te dentro do mar. Dentro da música.

Um beijo. Na boca.

Apenas uma nota. A tua.
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Trilogia das cores [Jul. 3rd, 2005|08:54 pm]
Para a minha princesa [info]marilia que anda a brincar com as cores

Red
A partir de hoje cada dia terá uma cor. Não direi já neste momento, nem esta noite, qual a cor que prefiro.
Prefiro que sejam as cores a escolherem-me, conforme as suas vontades de mim.
Há cores e palavras de que gosto muito. Violeta, oásis, magenta, ilha, mar, concha, branco, Pai, azul e verde.
Também gosto da palavra Amor que invento para ti e da cor do teu sorriso que te desenho por vezes…

Há outra palavra que me sabe a chocolate macio e morno e que me apetece sempre lamber… Bliss.

É uma palavra que se saboreia. Bliss. Dela faria um bolo branco de noiva coberto de rosas vermelhas.

A felicidade é erótica. Talvez porque chega de mansinho mascarada em cores pastel e se torna imensa em volúpia cor de fogo. Como quem faz amor. Como quem diz amo-te.

Enfim. Gosto de vermelho. É um segredo meu. Tão secreto como o amor.




Blue
Espreito-me num dia que gostaria de ter pintado de outra cor.
Andei por aí à procura dela.
Tive sede. Bebi água.
Procurei-a no fundo do copo
No fundo das almas de quem passou por mim
No fundo de mim

No fundo, sei onde se encontra essa cor
que me faltou.

Espreito-me num dia que gostaria de ter pintado de Azul.
Andei por aí à procura dele.
Ainda tenho sede.
Procurei-o no fundo do meu corpo
No fundo do mar feito de desejo em ondas.

Está tão perto este Azul…
Quase que o saboreio ao esticar a mão
Quase que o adivinho à minha janela
Quase que o bebo..
Quase quase….

À superfície do meu olhar
E no fundo do teu…




Violet
Esta cor não é simples
É feita de vermelho paixão de hoje da minha pele morna
de azul da ternura de sempre dos corpos que se falam
e de branco que se adivinha…

Esta cor é feita de sonhos e de desejos.

Esta cor será pintada quando me amares.

Vesti-la-ei quando abrires a tua porta e eu estiver lá.

Será pintada de almas, de sorrisos, de suspiros, desenhada nos orgasmos coloridos que se colam às telas que ficarão para a memória.
Telas que dançarão o desejo de cada dia. Cores que são nossas. Disfarçadas em beijos na boca. Escondidas em toques de pele de seda por colorir.

E conhecerás a minha cor. É feita de paixão, de pele e de ternura.

Termina aqui esta pequena trilogia das cores.
Feita num apeadeiro.
Vermelho Azul e Violeta.
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Em outros Azuis [Jun. 28th, 2005|05:50 pm]
Receita para espantar a tristeza, encher as nuvens de branco e assustar os dias cinzentos

Abrir os olhos e ver só o que nos entra na alma
Esperar que a noite caia e passear descalça por um campo de relva molhado, com os sapatos de salto na mão
Fazer uma criança rir só com uma careta
Arrumar gavetas e deitar tudo fora
Comer um gelado escandalosamente grande com pétalas de rosa em vez de morangos
Adormecer um bebé ao colo


Comprar uma saia absurdamente bonita, e pecaminosamente cara, azul de seda bordada a estrelas, comprida até aos pés e imaginar onde raio levamos a saia a passear esta noite.



Foto de Victor Melo
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Estilhaços [Jun. 26th, 2005|07:11 pm]
estilhaços de mim
pedaços de um corpo
fragmentos da alma.

Um dia destes mergulho no meu olhar para sempre. E depois perco-me no labirinto de mim. E serei corpo, alma, braços, coxas, lábios, lágrimas, carícias, solidão.
Talvez depois consiga colar os estilhaços de vidro que me sangram por dentro.




fotografia de A Brito
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Procuro [Jun. 21st, 2005|09:22 pm]
[Current Music |Juanes, Camisa Negra]




Procuro hoje as palavras exactas com que te diria de mim.
Procuro as frases que acertem nas tuas deixas e faria um diálogo perfeito.

E as ideias desenham-se na minha alma e sobem pela música acima até aos meus dedos.
E brotam as ideias feitas espirais de fumo em cigarros esquecidos transformados em fogueiras de um Inverno que nunca existiu.

E construo a minha e a tua fantasia como se fosse um castelo encantado saído dos livros que nunca li.
E as palavras vão surgir… em espasmos de orgasmos gritados à janela sem cortinas.

E calam-se as palavras no grito e nos meus dedos porque me chamam na campainha da porta da casa que me acolhe e me prende. Palavras que só existem neste mundo onírico que mato dia a dia, hora a hora e que rego em segredo nos minutos dos dias em que consigo chorar uma lágrima feita pérola de vida.

Hoje uma amiga querida linda fabulosa mulher feita de paixão e de estrelas disse-me…
"Gostava tanto de ser feliz…"

Nesse momento fomos apenas o espelho uma da outra. Foi um segundo, um grão de areia, uma coisa de nada. Um olhar por cima do mundo.


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The Postman Always Rings Twice [Jun. 19th, 2005|07:23 pm]



Um sonho



Ofereces-me rosas e cravos
sem espinhos sem prosas
ofereces-me as flores e as dores
com que vives e te deitas.

e eu, entro nas noites dos teus sonhos
sou o carteiro em delírio de surpresas
que te leva cartas de amor secretas
como as pétalas do perfume do meu corpo




The Postman Always Rings Twice
Jack Nicholson, Jessica Lange
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Porque escrevemos na net? [Jun. 18th, 2005|05:56 pm]
A sedução das palavras

Porque escrevemos na net? Chats, foruns, blogs, sites, journals? Já não precisamos de guardar as cartas em papel, nem os pequenos poemas em pedaços de toalhas de mesa de café. Já não usamos cadernos de linhas, nem blocos de notas.

E lemos o que os outros escrevem para si próprios. Ou para nós. Somos por um instante o destinatário da mais bela carta, do mais admirável poema de amor. E podemos participar na escrita do outro. Deixar um comentário. Passamos a fazer parte dos mundos dos outros.

A comunicação que se estabelece nestes momentos fugazes on line não deixam de me espantar (ainda me espanto de existir... posso entrar na Floresta Encantada do João Sem Medo).

Entremos então na floresta mágica de enganos... Procuram-se empatias, simpatias, ou apenas uma “voz” do outro lado do écran.

Soltam-se signos, palavras, timidamente palavras, que vão descodificando emoções, que vão desfiando confissões, que vão despindo sensações, que vão descarnando sentimentos.

Escrevem-se frases, ao sabor do momento, ao sabor do cheiro de um cigarro cujo fumo amarelece o teclado, ao sabor de uma resposta que se procura avidamente no meio da confusão, da loucura de nos misturarmos com todos, de nos unirmos a todos os que partilham desta vertigem de comunicar.

Procuram-se sinais, códigos, que nos indiquem o caminho para a alma gémea que por acaso e por destino se encontra no mesmo local virtual que nós. E todos os dias as almas gémeas se encontram. Por breves momentos. Apenas efemeramente no momento em que somos plenamente completos pelo diálogo que construímos com o outro, que até pode ser a “ponte do tédio” do Sá Carneiro.

Encontra-se o código. Encontra-se o anjo perdido da nossa infância. Encontra-se o riso, a alegria, a tristeza, o tédio, a emoção de partilhar apenas palavras, que são tudo o que temos.

A escrita é mágica, é delirante, pode não parar nunca, há sempre palavras a reinventar, há sempre novos sentidos para a palavra amor, para a palavra árvore, para a palavra oásis, para a palavra alma.

As sensações ficarão aqui sempre suspensas, presas pelo desejo do real, que se impõe ao virtual. A vontade de sair daqui será sempre prisioneira de nós próprios.

Os sentimentos aqui serão sempre intensos e efémeros. Loucos de desejo, mas presos pelo dedilhar de teclas que nos apaixonam, que deixamos por aí. Com estes sinais a preto que tocam ao de leve a alma e o corpo.
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O Mundo pelos Olhos do Zé [Jun. 17th, 2005|03:55 pm]


Para acabar com o crime: todas as pessoas do mundo deviam conhecer-se.
Porque as pessoas não assaltam as pessoas que conhecem.

Frase do dia do Zé – 12 anos
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Olhos Fechados [Jun. 16th, 2005|04:58 pm]
quando a luz que trazemos no olhar se nos apaga empalidecendo as cores das manhãs outrora vibrantes
quando a névoa se instala nos dias desfocando as fotografias que nunca tirámos
quando a mancha de água invade a nitidez das imagens guardadas de memória

restam apenas as palavras que escrevemos de olhos fechados



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Eugénio de Andrade [Jun. 13th, 2005|04:02 pm]
Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade





"Agora que regresso à evidência da cal
dai-me um pouco de água para a festa do sol
sobre os lábios"

E. Andrade, Limiar dos Pássaros
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Em Lagos [Jun. 12th, 2005|09:03 pm]
O Encoberto
I Os Símbolos

Segundo
O Quinto Império


Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz -
Ter por vida a sepultura.

(...)
Roubado abusivamente da Mensagem de Fernando Pessoa



estátua de D. Sebastião do Mestre Cutileiro em Lagos neste fim de semana em que fiz parte da gente de lá


D. Sebastião, Rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis minha grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

in Mensagem de Fernando Pessoa
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Beijos [Jun. 8th, 2005|05:40 pm]
- Como é possível eu encontrar assim pessoas tão bonitas?
- Sei lá. Acho que tu nos inventas.




GABI



- Tá bem, então dá-me um beijo.




- Não é bem isso que eu queria.
- Então o que querias?
- Uma coisa mais especial, única. Só minha.
- Toma.





- Perfeito. Amanhã peço-te um sorriso.


Fotografias de F. Castelo
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História de uma Paixão [Jun. 7th, 2005|12:29 pm]
Ontem falei-vos do meu amigo apaixonado e da minha incapacidade de o consolar. Tenho de vos contar a estória desta paixão que eu acho lindíssima e que me deixou feliz e aflita e triste e confusa tudo ao mesmo tempo.
Disse-lhe hoje – Não sei que te dizer
Ele respondeu – Não digas nada. Basta que estejas aí.


Esta é a estória de uma paixão. O texto é do meu amigo. A fotografia também e a paixão é dele.



Com o meu coração nas mãos dela

Foram as mãos. Aquelas mãos brancas, pequenas e delicadas, que numa manhã de Inverno me seduziram e encaminharam o olhar para aquele rosto sereno, angular, com uma boca distinta e uns olhos escuros enormes. Fiquei impressionado.
Meses depois, exposta, ali, à minha frente, com risos largos que revelam a beleza de uma boca povoada de perfeitos e alvos dentes, e os mesmos lindos e brilhantes olhos que lhe iluminam o rosto, por vezes misterioso, traindo naquele momento a fugaz emoção da experiência nova, a curiosidade e, até, alguma insegurança, frente à luneta mágica que a explora, eis que de repente me atinge em cheio.
Acertou mesmo no meio de mim. Com toda a brutalidade. Foi faca, foi bala, foi bomba, foi mais, foi um autêntico aríete que me implodiu o ser.
E foi ela, também, talvez com o olhar hipnótico, que me reconstruiu outro. Um novo ser, com um novo olhar, escravo de uma nova e profunda paixão, mais profunda do que qualquer alicerce de qualquer muralha de qualquer castelo. Uma avassaladora paixão, como jamais sentira.

E nos dias seguintes milhões foram as facas que se enterraram no meu peito. Sucumbi, ajoelhado, vergado sobre a força que me constringe este peito, possuído por esta angústia medonha que me cerca, implacável, como uma escuridão insidiosa.
Nos dias seguintes andei errante, caminhando pelas ruas da cidade, às voltas, procurando, por não saber dela. De onde vinha, onde estava. E, gradualmente, uma monstruosa inquietude foi-me invadindo até à mais pequena molécula de mim, e a todas as partes de mim. E respirar era difícil. E parar era impossível. E queria chorar. Queria, tanto, conseguir chorar. Chorar com toda a força. Mas as lágrimas não fluíram. Não houve gotas para refrescar esta caminhada ao calvário.
Perdi-me do que era antes e, assim, perdido, ando. Não me reencontrei ainda. Nem sei o que sou agora.

Neste estado de profunda catarse agarrei um lampejo de impulso racional e estabeleci o plano, diabólico, de assassinar esta paixão que me consome. Exorcizá-la. Não me escondendo, nem a evitando a ela, a das mãos lindas. Antes, procurando a sua companhia para primeiro, acalmar o turbilhão em que me transformara e para depois poder reconstruir uma realidade. A realidade da impossibilidade. Assim, afogo ilusões que acredito não poder transformar em vida nova. Numa nova vida. E recordo o poema que pede ao tempo para voltar atrás. Vã ilusão, confirmo. E sofro…tanto.

E hoje vejo-a. Sem a procurar, é ela que vem, e sorrio-lhe, e sorri-me. Falamos. Mas não destas coisas, que ignora completamente. Toca-me suavemente no braço, como quem acaricia uma pena, com uma daquelas mãos que adoro, pequena, alva e delicada, para se aproximar e espreitar um postal que admiro. E o quinto dia do meu novo ser consome-se nesta efémera tranquilidade. Mas a dor continua, aqui, mesmo no cimo do peito, profunda, dominadora, esmagadora.
E as lágrimas continuam a não correr. E precisava tanto delas, para drenar este sofrimento que me consome, tanto como os áridos campos de hoje clamam por gotas providenciais que os venham aspergir e salvar da impiedosa seca. Assim mesmo.

Agora sossego um pouco. Tenho a promessa de tocar as mãos. Aquelas mãos brancas, pequenas e delicadas. De as pintar, gravar na tela onde poderei admirá-las, para sempre.
E depois, … não sei. Talvez me reencontre, ou talvez fique perdido para sempre nesse limbo, para onde Afrodite me expulsou.


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Como se consola um amigo apaixonado? [Jun. 6th, 2005|07:44 pm]


Tenho uma sorte enorme na vida. Há pessoas que fazem parte da minha vida como se fossem estrelas em noites quentes de verão. Não as possuo, não as tenho, não são minhas, como as estrelas, mas estão lá sempre que preciso delas. A essas pessoas eu chamo estrelas (a brincar,) e a sério chamo amigos. Ou a brincar chamo amigos e a sério chamo estrelas… Já nem sei bem…
Pronto. Isto foi uma introdução bonitinha, só para dizer que adoro os meus amigos. Cada um tem um lugar no meu coração. Cada um ocupa o espaço que é só dele.

Um dos meus amigos tem um lugar de guardião. Guarda as minhas paixões. Eu explico. Conto-lhe de todas as vezes que me apaixono, que são muitas, porque sim… e ele vai guardando essas paixões e dando alcunhas a todos esses empolgamentos ou acidentes de percurso que me vão saltando ao caminho. E depois deixa-me chorar no ombro dele e consola-me e faz-me rir da vida e de mim….E gargalhamos juntos e a minha paixão passa e fico pronta para outra. E depois dizemos montes de disparates e asneiras e pronto. Ele é uma estrela e é meu amigo.

Ele é forte como todos os guardiães. Mas desta vez.. baralhou-me. Ontem disse-me:
- Pá, tou armado em LolaViola. Apaixonei-me!

E depois desatou o rol da paixão ardente, desfez-se em ondas do mar suaves e azuis, mostrou-me o sorriso a preto e branco da sua linda deusa, abriu o coração dorido, desmaiou em suspiros e ais, desabou em fragilidades e disse-me:

-Adoro-te. És amiga.

E agora? Como é que eu sossego o guardião das minhas paixões? Como é que eu pego ao colo no meu pilar de força que me dá mimos sempre que eu chovo nos dias de desilusão? Como é que se consola um amigo apaixonado???


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Falta-me a música e a fotografia [Jun. 4th, 2005|11:20 pm]
Porque sim


Porque me apetece voar.
Porque gosto de janelas abertas por cima da minha vontade.
Porque gosto do azul dos olhos dos homens que me seduzem.
Porque uso, vaidosa, as cores com filtros dos meus desejos.
Porque sou a cor que te (me) apetece...
Porque me pintarei da cor que (te) me fizer feliz
e .. meu amor, porque sim.

tu nem sabes de que cor é a cor que uso nas noites claras...




e porque gostaria de ter uma música escrita só para mim ou desejada.. e porque gostaria de uma fotografia desenhada só para mim, ou sonhada.. e porque artistas que me lêem.. e porque vos peço porque eu gostava... uma música, uma imagem, agora, hoje, amanhã, um dia destes...


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INTERVALO [Jun. 3rd, 2005|08:42 pm]



Vivo os dias que me deram através dos afectos. São meus, esses afectos que cuido como se fossem flores em vasos na minha varanda. São fortes, são frágeis, são coloridos, são discretos, são exuberantes, são vaidosos, são efémeros, são eternos, como as flores… são meus.

E depois dou nomes aos afectos, como dou nomes às flores. A um desses afectos, chamei-lhe mãe. Por capricho do destino nasci fora de época, o que significa nascer no meio de uma família já toda estruturada e completa. Por capricho do destino, assisti desde sempre ao fenómeno fantástico chamado - VELHICE, que como todos sabem, é uma grandessíssima puta.

Este afecto a quem chamo mãe foi ontem operada, picada, cosida, como se tivesse ido ao hospital das bonecas. Arranjar os olhinhos que já não vêem. Como as bonecas cujos olhos de vidro deixaram de pestanejar. Talvez porque as suas donas meninas as deixaram de amar.. talvez...

Nunca percebi bem o que se passava nesse mágico hospital das bonecas na Praça da Figueira onde eu passava de mão dada com esse afecto a quem chamo mãe quando ela era mais nova e eu olhava extasiada para a montra de afectos abandonados.

Esta noite espero um telefonema. Que me dirá se esse afecto a quem chamo mãe deixou de ver as cores das quais eu sou feita ou ainda adivinha os meus contornos.
Esta noite saberei se esse afecto a quem chamo mãe está cega.
Tenho pena, muita pena desse afecto chamado mãe. E tenho um pouco de medo, já que a doença feita em destino que ela tem é hereditária e passará inevitavelmente para mim…

Por isso, esta noite vou ver tudo o que há para ver. E vejo sempre melhor de olhos fechados. Porque vejo os meus afectos…. Oiço os seus sorrisos, sinto as suas músicas, aspiro os seus aromas… beijo as suas peles.

De olhos fechados, sei que verei sempre melhor do que agora. A cegueira é apenas uma flor que eu terei de regar como todas as outras. Com amor.. pelo tacto.. pelo sorriso.

Eu hoje ia escrever sobre milagres. Mas perdi-me nas letras. Vocês vão perceber. E vão desculpar que eu não vos tenha dito que os milagres existem.. Mas existem. Um dia destes eu conto um milagre. Hoje não.
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Icones - Escher [Jun. 1st, 2005|08:41 pm]
-Passeio pelo labirinto do teu corpo. Desço escadas suaves feitas da tua pele e procuro o centro do teu prazer.
- Faço do meu corpo uma arquitectura impossível. Pernas colunas de alabastro, espelhos do teu olhar, coxas em arcos coloridos que te acolhem, candelabros de olhos em flashes brancos que iluminam os nossos corpos em formas labirínticas.
- Encontro-te. Ao fim de escadas impossíveis. Subo e desço e chego por fim ao teu êxtase total.
- Sabes que te amo?
- Sei. Mas agora dorme. Sonha com Escher.


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Sem Medo... da vida.... [May. 28th, 2005|10:06 pm]



Poema do II volume de «Poeta Militante»

Que importa, Poesia,
que vivas, apenas um momento,
De relâmpago num punhal?

Eu não nasci para apodrecer de glória
nos jazigos das selectas
ou para andar com a dor de fora como os outros poetas.

Nasci para este instante de grito nas bocas a ignorarem-me
- brilho fugaz dum raio de sol escuro
a rasgar na floresta
imitações de aurora.

Vá, Poesia, despreza a glória do futuro
e grita, raiva, protesta!

(Mas o meu coração chora)

José Gomes Ferreira




há dias em que vamos buscar paixões antigas que fazem sentido no presente e no futuro que é já daqui a nada....

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