Não me lembro em que dia foi, mas lembro-me do dia exacto em que ouvi pela primeira vez falar no Derek Jarman. Estava em Londres, ainda com a minha mãe, portanto deve ter sido em 84 ou em 85, e a Neta mostrou-nos uma cassete de vhs que tinha gravado da televisão (do Channel Four) com um filme estranhíssimo e completamente gay: o Sebastiane, o filme que Jarman rodou, falado em latim, sobre a vida e a morte de São Sebastião. Era a primeira vez que eu via imagens explicitas de erotismo homossexual, de homens nus, em amplexos sexuais ou simplesmente em exposição, de pénis erectos, de encenações de orgias. Tudo isto com uma caução artística, que o filme estava o mais longe possível da exibição pornográfica (não que faça grande diferença: até essa altura, e tanto quanto me lembro, nunca tinha visto um filme pornográfico, e já tinha 22 ou 23 anos). A partir daí nunca mais perdi o Derek Jarman de vista. Não me recordo de sequer ouvir falar no nome dele cá em Portugal, mas sempre que ia a Londres era um dos nomes a que dava muita atenção. A única revista gay que me lembro de comprar na altura era a Gay Times, e há-de ter sido por ela que eu fui aprendendo alguma coisa acerca de Jarman: dos seus filmes e da sua importância artística, do seu activismo gay, da sua condição de seropositivo. Por meados dos anos 90, na sequência da morte de Jarman, comprei dois livros do Derek Jarman, Modern Nature e At Your Own Risk, mais assumidamente diarístico o primeiro, mais memorialista o segundo. Numa altura que não consigo precisar vi no Gil Vicente mais um filme do Derek Jarman, Edward II, que me lembre o único filme dele que vi numa sala de cinema em Portugal. Tenho ideia de terem passado alguns na televisão, inclusivamente o Sebastiane, pelo menos tenho ideia de o ter gravado por aí algures numa cassete de vídeo, e há alguns filmes dele editados em dvd, pelo menos o Wittgenstein e o Caravaggio, que se encontram, salvo erro, à venda na Fnac. Também na Fnac, no escaparate das importações, encontrei um dos filmes mais especiais do Derek Jarman, The Angelic Conversation. Mesmo nos seus filmes mais convencionais o Jarman nunca foi um cineasta narrativo, mas é nos seus filmes mais experimentais, realizados sobretudo em Super 8, que mais se evidenciam, acho eu, as suas características, e as suas qualidades, de cineasta, precisamente o que acontece neste filme de 1985. Uma obra fragmentada, de carácter muito plástico, pictórico, filmado em velocidade lenta, com acentuada temática gay (ou queer, se calhar é mais exacto), nunca recusando, mas também parecendo não procurar explicita ou deliberadamente, um tom homo-erótico. O dvd, edição do BFI, traz extras preciosos, nomeadamente um entrevista com o realizador, e testemunhos de alguns dos seus principais colaboradores. Soube-me muito bem este regresso ao Derek Jarman, que foi um nome muito importante na minha formação pessoal, não tanto por questões identitárias, mas sobretudo de construção de um certo referencial de cultura gay e queer. E é curioso porque acho que andava com saudades de regressar ao universo de Jarman: já aqui há tempos, quando andei a construir a minha biblioteca gay no site librarything.com, tinha relido passagens dos seus livros. Agora fiquei com muita vontade de ver e rever os seus filmes. Se alguém estiver interessado, o youtube tem bastante material sobre o Derek Jarman: entrevistas, clips de filmes (nomeadamente do Sebastiane) e alguns dos clips que faz para bandas como os Smiths ou os Pet Shop Boys. Basta pôr o nome do realizador na opção de busca para aparecerem coisas interessantes.
Esta coisa de não ter nada que fazer e estar em Coimbra revela-se desastrosa do ponto de vista financeiro: de cada vez que saio de casa, nem que seja para ir lá abaixo por o lixo, compro livros. Claro que é sempre com a desculpa de que é para ler nas férias, mas já são tantos que precisava de um mês numa ilha deserta (sem livrarias) para os conseguir ler todos. Com o dinheiro que já gastei mais valia ter comprado umas férias caríssimas, daquelas num lugar qualquer paradisíaco que só existe no ficheiro clipart de algum publicitário megalómano.
Hoje saí de manhã e, claro, comprei logo dois livros, em duas livrarias diferentes. Um dos livros é um volume de memórias do Prof. Galopim de Carvalho, o dos dinossauros. Cheguei a casa, folheei o livro para ver o estilo e as fotografias e fui surpreendido por uma foto em particular do professor na famosa Pedreira do Galinha, onde existe um enorme trilho de pegadas de dinossauro.
Tenho de admitir que nunca fui tocado pelo fascínio dos dinossauros, talvez porque quando era miúdo eles ainda não tinham sido inventados e a nossa imaginação ainda se enchia com os desvarios do futuro e não com os mistérios do passado. Talvez fosse pelo ângulo da fotografia, que apanha os trilhos laje acima, deixando particularmente em evidência o relevo das marcas dos passos, quase como as pegadas que acabámos de deixar na areia húmida da praia, tive quase uma espécie de visão de um dinossauro (daqueles gorditos com o pescoço esguio e alto, que comiam as folhas das copas das árvores – isto é ciência de filme de Spielberg, nem sei o raio do nome dos bichos) a trepar encosta acima lá muito entretido na vida dele.
Fiquei tocado, quase comovido, um pouco como quando pela primeira vez os meus olhos se esbugalharam para as pirâmides de Gizé. São sempre especiais estes encontros com realidades com que lidamos quase quotidianamente mas que, lá no fundo, não percebemos completamente.
Estou de férias desde ontem, na prática desde sexta-feira passada. Hei-de sair, espero eu, lá para o fim da semana, para uma praia qualquer a sul, quer dizer a sul do equador, mas por enquanto estou de férias no meu sofá. E com uma enorme preguiça de computador. De vez em quando olho para ele, aqui na mesa, penso que deveria escrever qualquer coisa, lembro-me de temas para textos, mas depois viro-me para o outro lado e durmo mais um bocadinho. Ou leio.
Vi em dvd o derradeiro filme de Robert Altman, A Prairie Home Companion. Um filme tão bonito, tão suave como intenso, tão triste quanto alegre, tão simples e descomplexado, que parece mesmo um filme feito por um homem que se despedia da vida, e da vida que sempre teve, a de fazer filmes. Vi dois ou três filmes do Altman ali no final dos anos 70, na minha fase de bulimia cinematográfica, e nunca me libertei dele. Não vi todos os seus filmes, mas também não se pode, porque fez tantos. Faltam-me alguns dos últimos, nomeadamente os dois anteriores ao último, The Company e Gosford Park. Não sei se o Robert Altman é o cineasta preferido de alguém (talvez do PT Anderson que, lembro-me de ler algures, ajudou o Altman a terminar este filme), mas os seus filmes são tão importantes, que parecem ser sempre aquilo para que o cinema foi inventado: contar a história das pessoas como nós que o cinema eleva à condição de estrelas.
Comprei entusiasmadamente o livro Brando Mas Pouco, uma suposta biografia de Marlon Brando, e do seu voraz e indistinto apetite sexual. Um tijolo pesado de mais de 700 páginas, cada uma delas com várias revelações escaldantes. O problema é que tenho ali o livro a olhar para mim e não consigo passar das primeiras páginas: boring. Espero bem que a experiência de ter uma aventura sexual com Brando fosse mais trepidante do que este seu relato.
Aqui há uns meses falei de um artigo que vinha, se não estou em erro no New York Times, da autoria de Alberto Manguel, sobre as suas bibliotecas. Estou a ler, de sua autoria, Um Diário de Leituras. O livro é isso mesmo: um diário que cobre um ano, de Junho a Maio, em que cada mês é dominado pela releitura de um livro. Dos doze em apreço só li um, As Mémórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Mas o livro cria vontade de ler todos os outros. Não sei se simpatizo muito com Manguel, há coisas nele, muito subtis, que me provocam uma certa irritação. Mas é fascinante o modo como ele se relaciona com os livros e fala deles.
Saiu o segundo número da revista Com’Out. Acho que está melhor do que o primeiro. Mais consolidado. Fazendo figas para que o projecto resulte.
Pode parecer redundante face ao próprio conteúdo do filme, mas a primeira nota que se pode retirar a propósito de Tropa de Elite, o filme que José Padilha fez sobre o Bope, o batalhão da polícia militar brasileira encarregue das missões mais duras, é a de que a realidade urbana das favelas é de facto um fenómeno de outra dimensão, um tumor social tão complexo que, pelo menos a nós europeus, não pode deixar de causar perplexidade e perturbação. E o modo como o filme olha essa realidade, um pouco simplista na sua visão maniqueísta de maus e bons, é também o melhor que o filme tem, talvez porque é aquilo que está na sua origem, a vontade de fazer um documentário sobre as histórias reais dos elementos do referido batalhão. Porque independentemente da visão maniqueísta, o filme aborda algumas questões difíceis. A responsabilidade da classe média, nomeadamente da juventude universitária, que estimula o tráfico através do consumo hedonista é uma delas. E mais do que justificar a utilização da violência e da tortura por parte da polícia, o que me parece que o filme é justificar o recurso a essa violência da perspectiva da polícia. Não considerá-la justificada, mas antes talvez inevitável, no contexto de guerra aberta que se trava nas favelas do Rio. Apesar da linha ser ténue e subtil, parece-me que mais do que uma visão fascizante da sociedade o que o filme releva é sobretudo o ónus que recai sobre as forças da ordem do fracasso social e político que é a relação da pobreza urbana com o crime ligado ao tráfico de droga. De resto o filme pareceu-me frágil e desequilibrado do ponto de vista narrativo, talvez por querer cruzar demasiadas linhas. Ou então foi apenas traído por essa vocação documentarista inicial e perdeu alguma coerência na transposição para o dispositivo dramático. Achei a montagem excelente, e gostei muito do modo como o filme consegue sempre segurar a encenação da violência, nomeadamente dos tiroteios, imprimindo tensão mas nunca se deixando resvalar para o campo do filme de acção.
E em dia de falar de cinema brasileiro, a notícia triste vem do lado da música popular: morreu Dorival Caymmi. Mas mais do que uma lenda dessa arte absolutamente genial que é música popular brasileira, Caymmi fazia parte do seu código genético, e do nosso, de quem admira e não pode viver sem MPB. Um daqueles casos raríssimos em que o homem atingiu verdadeiramente a imortalidade em vida. Porquê? Porque Dorival, compositor baiano e do mundo, escreveu pelo menos uma dezena de canções que conseguem aquela coisa notável que é desligarem-se da sua autoria, tornarem-se canções que conhecemos, que conhecemos cá dentro, dentro de nós, mas de maneira tão intrínseca que elas são mais nossas do que algum dia as escreveu. É de facto realmente assim: se um dia se perguntarem quem foi que escreveu uma canção brasileira que sempre conhecemos mas da qual ignoramos a autoria, é enorme a probabilidade de ter sido escrita por Dorival Caymmi.
Em Fevereiro de 2006 o jornal The Times, de Londres, publicou um interessante artigo sobre um livro que estava prestes a ser publicado, The Weight of Numbers. O artigo descrevia as vicissitudes da escrita e da edição do livro como se se tratasse de um jogo de snakes and ladders, o popular jogo da glória, com os avanços e retrocessos, longos e curtos, típicos desse jogo de tabuleiro tão popular (o artigo está na edição on line do jornal e pode ser encontrado neste link) Comprei o livro (em edição nacional da Asa, com o título O Peso dos Números), da autoria de Simon Ings, sem informação prévia nenhuma, apesar de ter uma vaguíssima ideia de já ter lido alguma coisa sobre ele. E comprei-o basicamente porque as folheá-lo reparei que tinha algumas referências a Moçambique. Vou a pouco mais de meio das mais de quatrocentas páginas e está a ser um dos livros mais complexos que li em muito tempo. No artigo do Times que referi diz-se que o que levou Ings, um jornalista da área da ciência, a escrevê-lo foi ter-lhe surgido como tema a possibilidade de todas as coisas importantes terem a ver não com a ideologia ou com a ética ou com a moral, mas apenas com o puro e simples peso determinante dos números. É composto por uma teia de narrativas, cujas interligações intuímos mais do que conseguimos estabelecer com clareza, e que focam acontecimentos e factos decisivos na história do mundo do século XX. Tudo cabe neste livro: matemática, sociedades secretas dedicadas à filosofia, o blitz londrino na II Guerra, o comunismo, o wrestling mexicano, a guerra colonial portuguesa, a anorexia, a utilização de choques eléctricos pela psiquiatria, o programa de exploração espacial da NASA, os programas de desminagem, são apenas algumas. As personagens são muitas, algumas parecem mais centrais do que outras, há as que aparecem e desaparecem em poucas páginas e as que estão sempre a reaparecer. Há acontecimentos históricos, outros ficcionais, e ainda outros que não sendo rigorosamente históricos recriam episódios que efectivamente aconteceram. Há dois acontecimentos que o livro interliga, por acontecerem ao mesmo tempo, e que parecem constituir eixos à volta dos quais se vão constituindo as restantes narrativas: em 20 de Julho de 1969 o homem pisa pela primeira vez solo lunar, e ao mesmo tempo o líder da Frelimo, o partido que lidera a guerra de libertação colonial em Moçambique, é assassinado através de uma bomba montada num livro (inspirado no assassinato de Eduardo Mondlane, que de facto aconteceu em 69, mas em 3 de Fevereiro). O livro é de uma leitura quase compulsiva, porque está muito bem escrito, e o autor consegue criar constantes focos de interesse. Apesar de na maior parte do tempo estarmos completamente perdidos, sem saber o que está a acontecer ou para onde é que o livro nos leva. Aliás como disse já vou em pouco mais de metade e para falar com franqueza ainda não percebi o sentido daquilo tudo, se é que tem de facto um sentido.
Agora que os corifeus da verdade televisiva andam a descobrir que tudo na cerimónia de abertura dos jogos olímpicos foi falso (do artifício do fogo do dito à canora criança desdentada passando pelos painéis avariados do windows), rezo a todos os santinhos para que também não se venha a apurar que afinal a dupla canadiana no concurso de saltos sincronizados em prancha de três metros também é digitalmente manipulada. Sim, porque o Alexandre Despatie (uma paixão antiga, que já vem desde 2004, em Atenas, onde fomos tão felizes) e o Arturo Miranda são demasiado bons para serem verdade. Ó deuses do Olimpo, que visão estonteante! Não passaram do 5º lugar mas por mim levavam o ouro, a prata, os outros metais preciosos todos, os anéis e os dedos. Tudo. Por outro lado, poder-se-iam escrever várias teses de doutoramento a propósito das pernas do Kai Qin, da dupla chinesa que ganhou a competição. E assim vai o mundo das olimpíadas.
Só um comentário que tem a ver com os resultados dos atletas portugueses nos jogos olímpicos, nomeadamente com os da natação. Houve quem se chocasse com o facto de dois atletas terem comentado que tinham ido a Pequim apenas com o objectivo de bater recordes nacionais, e que isso poderia ser feito cá, nas piscinas nacionais. A verdade é que não podia. Em todas as modalidades desportivas, mas principalmente naquelas em que o sucesso se mede por uma determinada marca, como a natação ou o atletismo, e não pelo resultado de um confronto a dois, como o judo ou o basquetebol, só a competição com atletas melhores do que nós ou pelo menos ao nosso nível fornece o estímulo suficiente para o esforço adicional necessário para a melhoria. Um nadador que nada sozinho dificilmente se consegue ultrapassar a si próprio. Por isso é que nos meetings de atletismo há atletas que são convidados, e pagos, pela organização para funcionarem como lebres, ou seja para puxarem os restantes atletas, nomeadamente os melhores em prova, para a obtenção de recordes. Ninguém consegue bater um recorde, sobretudo pessoal, a correr sozinho à volta de uma pista ou a nadar sozinho piscinas consecutivas. Por isso é tão importante a presença dos atletas em competições como os jogos olímpicos em que estão presentes os melhores. Se os que vão ao jogos são os melhores, isso significa que apenas nos jogos eles conseguem nadar contra atletas que são melhores do que eles. Isto é particularmente significativo em países relativamente pequenos, como o nosso, em que por uma questão demográfica são poucos os atletas que chegam ao topo das suas modalidades. E é também por esta razão que a maior parte dos atletas dos países pequenos vão treinar para os países com maior número de praticantes: não apenas e nem tanto porque os métodos de treinamento sejam mais aperfeiçoados, mas porque o nível de competição é mais elevado e isso funciona como estímulo à superação individual. Por esta razão, e apesar de ter estado a acompanhar muito lateralmente estes jogos e nomeadamente os resultados dos atletas portugueses, não me parece que a natação seja propriamente a modalidade em que os atletas portugueses tenham feito ou estejam a fazer má figura. Pelo contrário, têm sido batidos recordes individuais e nacionais, precisamente porque o nível de competição é elevado e a isso estimula.Não chegam ao pódio? Pois, é verdade, mas também o é para 99% dos atletas que estão em Pequim.
Vi qualquer coisa na CNN no domingo à noite, mas tinha acabado de chegar de um casamento, era tarde, e não dei muita atenção. A princípio ainda me passou pela cabeça, por causa do tom elegíaco, que pudesse ser um obituário, mas achei que não, que devia ser outro o conteúdo da notícia. Afinal era mesmo a notícia da morte de Isaac Hayes, que confirmei ontem ao longo do dia na internet. Não posso dizer que seja um profundo conhecedor e amador da obra de Hayes, mas bastaria uma simples canção, o tema de Shaft, para celebrar o papel de Hayes na música popular, nomeadamente ao marcar, e mesmo codificar, um determinado som da soul. Uma música eléctrica, carregada de tensão sexual, que nos rodeia e envolve como uma onda sensual e com um ritmo tão diabolicamente dançável que não há par de ancas que lhe resista. Uma música negra, pois claro.
De todos os clips que há no youtube com este tema, escolhi aquele que tem o genérico inicial do filme, não só porque foi para este filme que a música foi feita (o que rendeu a Haynes dois oscares) mas principalmente porque me parece que é com estas imagens que o tema de Isaac Hayes parece fazer mais sentido.
Who's the black private dick That's a sex machine to all the chicks? -Shaft! You're damn right
O quarto está completamente às escuras. Ao contrário do que é habitual, corri o estore e a raríssima luz que chega do corredor não permite mais do que adivinhar a mancha dos corpos. O Nuno está deitado de barriga para baixo e eu estou deitado em cima dele. As minhas coxas sobre as suas coxas, a minha pélvis colada ao seu rabo, a minha pila murcha entre as suas nádegas, o meu peito sobre as suas costas, os meus braços sobre os seus braços, e rodeando a cabeça, o cabelo cortado muito curto a roçar-me a face. Passado algum tempo, eu deslizo para o seu lado, e fico deitado sobre o flanco esquerdo, adivinhando a silhueta do seu corpo. Tacteando com a polpa dos dedos, o Nuno começa a descer ao longo do meu corpo, até se aninhar junto às minhas pernas. Abocanha-me o pénis e começa a chupar, enquanto as mãos vão-me tacteando o escroto, o ânus, as coxas, as nádegas. Fico duro num instante. A boca e as mãos do Nuno vão trabalhando o meu pau, num jogo de manipulações que não identifico, mas que me põe rapidamente em transe sensorial. Começo a masturbar-me, sem tirar por completo de dentro da boca do Nuno, que me vai chupando e lambendo a glande e os dedos. Começo a gemer e venho-me. Sinto ainda a boca do Nuno no meu pau sensível, e a chupar-me os dedos. Depois iça-se até junto do meu rosto e beija-me. Diz: «Agora que já te bebi podemos ser namorados». Pede-me para acender a luz. Eu continuo deitado sobre o flanco e o Nuno senta-se na borda da cama, de costas para mim, e masturba-se, a cabeça deitada para trás, a boca aberta, gemendo mais com desejo do que com prazer. Eu olho para o relógio, são quase quatro e meia da manhã, e daqui a pouco mais de duas horas vou ter de me levantar para ir trabalhar.
Vinte e cinco anos depois de My Life in The Bush of Ghosts e dos Talking Heads, o Brian Eno e o David Byrne voltam a fazer um disco juntos. Vai chamar-se Everything That Happens Will Happen Today (tão oblique strategies, este título) e vai estar disponível a partir de 18 de Agosto (pelo que percebi, vai poder ser ouvido em streaming gratuitamente, ou poderá ser comprado o download ou o cd físico). Entretanto no site do disco já está disponibilizada para downloading gratuito uma das faixas, Strange Overtones. Que, desde que fiz o download na passada segunda-feira, quando foi disponibilizado, ainda não parei de ouvir. Que saudades. O som é completamente Eno, com aquelas camadas de instrumentos e vozes muito típicas das suas canções, e que lhes dão um ambiente cósmico e circular, mas o David Byrne, que fez as letras e dá a voz, traz à colaboração frescura e uma certa irreverência muito cerebral e divertida. E além disso é muito funky e dançável, o que é sempre um plus. Vai ser, a julgar por esta amostra, um cd excitante. Claro que no youtube já rodam versões da canção feitas com clips caseiros. Escolhi este porque me pareceu o que menos interfere com a música. Há um outro com uma curta-metragem muito interessante, mas que, acho eu, interfere um pouco nesta coisa de receber com alguma pureza a canção. Também foi a este clip que fui roubar a versão da letra que me parece estar bastante fiel ao texto do Byrne (e à qual só fiz uma alteração: 'mittens' em vez de 'knee things' no primeiro verso da quarta estrofe).
I wake up every morning I hear your feet on the stairs You're in the next apartment I hear you singing over there
This groove is out of fashion These beats are twenty years old I saw you lend a hand to The ones out standing in the cold
Strange overtones In the music you are playing I'll harmonize It is strong and you are tough but a heart is not enough
Put on your socks and mittens It's getting colder tonight A snowball in my kitchen I watched it melt before my eyes
Your song still needs a chorus I know you'll figure it out The rising of the verses A 'change in Key' will let you out
Strange overtones Though they're finely out of fashion I'll harmonize Seen the music in your faith That your words cannot explain
Strange overtones In the music you are playing When on a note It is strong and you are tough But a heart is not enough
Adorei a cerimónia de abertura dos jogos olímpicos de Pequim. Acho que nunca tinha visto nada assim tão deslumbrante e fabuloso, o casamento perfeito entre a mais avançada tecnologia e a simplicidade das tradições mais elementares. Num enorme tapete digital, uma folha de papel estendida e um grupo de bailarinos fazendo desenhos ao sabor dos passos de dança. Uma lanterna de papel em forma de globo percorrido por pessoas a correr em desafio às leis da gravidade e à nossa capacidade de compreensão.
Podemos apreciar estes jogos ao arrepio das preocupações, mormente humanitárias, que a política chinesa desencadeia? No seu blog, a Jasmim faz um eloquente e inquietante comentário a esta questão, pondo, sem grandes comentários, um clip com imagens da cerimónia de ontem em Pequim e outro da dos jogos de Berlim, em 1936.
Há uma longa tradição de boicotes ao longo da história das olimpíadas modernas. Em 1976, em Montreal, a própria China iniciou uma série de boicotes ao jogos protestando contra a aceitação por parte do comité olímpico de Taiwan, com a designação de República da China, e só regressaria aos jogos em 84. Em 1980 os jogos de Moscovo foram boicotados por um enorme grupo de países ocidentais em protesto contra a invasão soviética do Afeganistão (Portugal foi um dos países que participou no boicote, apesar de ter havido um grupo de atletas que o furou e se deslocou aos jogos). Em retaliação, os jogos de 1984, em Los Angeles, forma boicotados pela URSS e demais países do antigo bloco de leste. A África do Sul, no tempo do apartheid, estava impedida de participar nos jogos (e em todas as outras competições desportivas internacionais).
A questão é: se há assim tanta preocupação com a China, porque é que os jogos de Pequim não foram boicotados? Claro, porque ao contrário do que acontecia há vinte ou trinta anos, o capitalismo fala mais alto do que a ideologia. Aliás, já nem há questões ideológicas a dividir os países, China inclusive. Os jogos de Pequim representam uma oportunidade de negócio, aliás muitas, para se tomarem medidas efectivas de penalização da China. Mas como temos de limpar a consciência, fazemos todos, Bush e Sarkozy incluídos, profissões de fé acerca da China, dos atropelos aos direitos humanos, e da sua política expansionista em relação, por exemplo, ao Tibete e, hélas, a Taiwan!
Isto para já não relembrar que há trinta anos éramos todos (enfim, generalizo) maoistas, numa época em que a China era incomparavelmente mais brutal para com os seus cidadãos do que, apesar de tudo, é hoje. Francamente, acho que isto tudo é uma enorme hipocrisia. Acho que nós precisamos de balões de oxigénio politicamente correcto para podermos dormir de consciência tranquila e fazermos de conta de que os males do mundo também não são responsabilidade nossa, de cada um de nós. É sempre mais fácil arranjar um culpado oficial e o mau da fita de serviço do momento é a China.
Apesar de não me considera propriamente um sinófilo, tenho um enorme fascínio pela China (não conta, claro, pois sou fascinado por todo e qualquer rincão do mundo), enquanto cultura mas também pelo que tem sido a sua evolução nas últimas décadas. A China conseguiu, ou está em vias de, transformar a sua sociedade e a sua economia sem cair nos atropelos e nas contradições em que caiu, por exemplo, a Rússia. E sinceramente acho que o que mais incómodos causa aos ocidentais não são os atropelos aos direitos humanos na China, mas sobretudo a perspectiva de a China se vir a tornar, num prazo mais curto do que aquele que prevíamos, ou que temiamos, na potência dominante da economia mundial e, por isso, do mundo.
Faço tenção de ver os jogos, disfrutá-los e não vou deixar a minha consciência atrapalhar esse meu prazer. Nem por um momento me esqueço dos mortos e das vítimas dos regimes políticos, mas já cá ando há tantos anos que aprendi a conviver com esse lado mais sujo e desagradável desta coisa de ser cidadão do tempo que me calhou em sorte viver. Não preciso de mostrar as mãos limpas a ninguém. Isto é cinismo? Olha, se for temos pena.
08-08-08 Este princípio de século dá-nos a oportunidade de vivermos, uma vez por ano, esta coisa um pouco mágica, das datas redondas. Não me lembro da do ano passado, mas lembro-me perfeitamente da de há dois anos, que registei em fotografia (e pus aqui no innersmile, se não estou em erro). Mas hoje, apesar dos bons augúrios que levaram a China a escolher este dia para abertura dos Jogos Olímpicos (cuja cerimónia vou perder, por estar a trabalhar, eu que gosto tanto de assistir a estas cerimónias), o dia está-me a soar um pouco estranho.
Ontem à noite, já não sei porquê, liguei o televisor quando cheguei a casa, e deixei-o sem som, enquanto ia dar uma voltinha pela net. Por volta das onze, decidi ir para a cama ler e fiz um zapping pelos canais do costume antes de desligar. Na Sic Notícias estavam a transmitir imagens de uma mulher, de calças brancas e t-shirt escura, de mãos algemadas e com uma pistola encostada ao pescoço. Não fazia ideia do que estava a acontecer, mas percebi que afinal tinha havido uma tentativa de assalto a um banco em Campolide, às três da tarde, e que, oito horas depois, os assaltantes ainda estavam barricados dentro das instalações do banco, juntamente com dois reféns. Passado pouco tempo apareceu no plano da imagem, ou seja, na porta do banco, o outro refém, igualmente algemado, seguido por um dos assaltantes, que vestia calças de ganga, ténis e luvas, e que lhe encostava uma pistola à nuca. A imagem era captada a muita distância, apesar do zoom, e por isso viam-se muitos polícias, nomeadamente dos GOE. Passado um bocado, quando parecia não haver grande coisa a acontecer, ouviram-se uns tiros e viu-se a senhora a fugir e os polícias a entrarem. Fez-me tudo muita impressão. Achei perturbante ver as pessoas ali com as pistolas apontadas à cabeça. A nossa maneira de lidar com a realidade (quer dizer, a minha, pelo menos) passa muito por eu ser capaz de representar as situações para reflectir sobre elas, e não me consigo imaginar a viver uma situação daquelas, como é que se lida com o passar das horas, com o medo, o que é que nos passa pela cabeça. Também me perturbou saber que aqueles tiros que nós ouvimos em directo mataram um dos sequestradores e feriram gravemente o outro. Ou seja quando ouvimos o barulho e vimos a senhora a correr, isso significa que o sequestrador que a estava a segurar tinha acabado de ser atingido. Parece-me mesmo um bocado obsceno esta coisa de a morte de uma pessoa ser testemunhada pelas câmaras de televisão. Há uma foto, creio que no site do diário de notícias, onde parece que se vê ainda o esboço de alguém que acabou de largar a senhora. Um fantasma.
Era Agosto e o chão fervia no calcário incendiado dos passeios. Nós descíamos à Praça, convocados às esplanadas e aos cafés. A revolução mansamente adormecia em seu estertor, e a cidade, pela primeira vez, ausentava-se para férias.
Era Agosto, e de Espanha nem bom vento nem bom casamento, mas era cá dentro que as fronteiras se fechavam, e aprendíamos a só contar com o que tínhamos, juventude sem sono à espera da madrugada.
Era Agosto e o chão morria. Despedia-se o poeta, em palavras, e nós alheios a essa ausência. Chovia, para lá do Outono. Nas salas e nos sótãos esperavam-nos os últimos cartuchos do futuro. Sorrimos, hoje, desses retratos a sépia, recortes de jornais. E já nem temos saudades de nós.
Passei o fim de semana passado basicamente a servir de ama-seca à C. que é uma das pessoas de quem eu mais gosto no mundo. A C. foi para o estrangeiro fazer um estágio de alguns meses, na madrugada de segunda-feira, e por uma daquelas leis que tentam explicar o acaso (tipo lei de murphy ou whatever), todas as pessoas que a poderiam apoiar nos preparativos e a suportar a ansiedade das longas horas da véspera, estavam ausentes, pelo que só eu é que estava mais disponível. Fomos ao cinema, fomos jantar fora (adorei o restaurante japonês, onde nunca tinha ido), passeámos, tomámos cafés, discutimos aturadamente o que é que ela devia levar (opus-me, sem sucesso, ao mixer para fazer sopas, que na minha opinião deveria ser trocado pelas sapatilhas), e ainda como é que ela havia de levar lá as amostras do trabalho dela, que além de terem de ir acomodadas em frio, tinham uma aparência inquietantemente parecida com saquinhos de droga para tráfico. Já quase no fim de Domingo fui levá-la a Aveiro para apanhar uma boleia para o aeroporto.
Partilhar com ela estes momentos trouxe-me muito à lembrança uma experiência similar que eu tive, há precisamente dez anos, quando fui para os Estados Unidos fazer um estágio. Aquela mistura certa de ansiedade e apreensão dos dias prévios à partida e o fervilhar aéreo dos primeiros dias à chegada podem-se tornar uma espécie de droga. Como eu nunca fiz Erasmus (ainda não tinha sido inventado no meu tempo de faculdade) esse estágio foi a primeira experiência de estar no estrangeiro sem ser propriamente em férias (ou, no meu caso, por razões de saúde, como já tinha acontecido). Senti uma vontade imensa de repetir a experiência, mas assim como nunca me passou pela cabeça a possibilidade de fazer um estágio remunerado numa das organizações americanas mais conhecidas à escala mundial, também não acredito nada que a sorte me saia uma segunda vez. Mas pronto, não me posso queixar, já tive a minha dose. Mas que gostava de repetir, lá isso...
Ontem à noite estive a reler o diário que escrevi nesses dias da América, entre Abril e Junho de 1998. Há muito tempo que não o relia, aliás acho que nunca o tinha feito por completo, de uma ponta à outra. É um diário sui generis, que tem todos os dias, a abrir, um registo das despesas do dia e, mensalmente, o total de gastos do período. Acho que devia estar a controlar com rigor as minhas despesas, para tomar essas notas. Como acontace quase sempre o registo começa muito minucioso e termina já quase em estilo telegráfico. Ao início muitas referências ao estágio e às respectivas actividades, que para o fim desaparecem quase inteiramente. Em compensação vão surgindo cada vez mais referências àquilo que eu estava a sentir, reflexões sobre a minha maneira de ser, e como é que eu estava a reagir ao facto de estar, pela primeira vez, sozinho e num meio relativamente estranho. Sem ponta de presunção, por vezes surpreendo-me quando leio coisas que escrevi há muito tempo e percebo a minha capacidade de me analisar e me pôr em causa.
Uma das coisas interessantes desse diário é nunca aparecer uma referência explícita à homossexualidade. O que é mais espantoso pois muitas das reflexões nele expressas têm a ver com a visibilidade dos homossexuais na cidade onde eu estava (os bares, os lugares de encontro, os olhares e os reconhecimentos) e com o facto de, apesar das oportunidades, eu nunca ter dado um passo para contactar ou conhecer outras pessoas. Ou seja, há apenas dez anos atrás, e apesar de eu não ter qualquer espécie de dúvida acerca da minha orientação sexual, ainda estava tão dominado pelo secretismo da coisa que nem para um diário que nunca seria (e nunca foi) lido por mais ninguém eu me atrevia a nomeá-la. Outro aspecto curioso prende-se com a mudança de tom ao longo do diário em relação à América e aos americanos. Muito crítico ao início, e completamente fascinado no fim, sem vontade nenhuma de me vir embora, já cheio de saudades sobretudo da própria experiência, da paisagem, do olhar. A última entrada do diária foi escrita no aeroporto de Amesterdão, quando estava a fazer escala, à espera do voo para Lisboa. É um balanço engraçado da situação e se tiver paciência ainda um destes dias o copio para aqui.
Aliás, desde há muito tempo que me tem passado pela cabeça a possibilidade de transcrever esse diário para aqui, mas ontem, ao relê-lo, achei que isso não faz grande sentido, salvo uns dois ou três trechos. Mas a propósito de balanço, e vista daqui, desta distância de dez anos, confirmo que essa experiência americana foi das coisas mais importantes na minha vida. Verdadeiramente transformadora. A todos os níveis, e até essa questão da homossexualidade mudou depois disso. A experiência americana e a internet mudaram de facto a minha vida ou pelo menos mudaram-me a mim (como, poucos anos mais tarde, eu mudei depois de eu ter regressado pela primeira vez a Moçambique). Por vezes tenho pena que isso tenha acontecido tão tarde na minha vida, quando os meus trinta anos estavam quase no fim e já me estava a aproximar dos quarenta. Mas ainda que não seja um daqueles casos de 'mais vale tarde do que nunca', ainda bem que mudou. Pensando nisso agora, acho que estes últimos dez anos da minha vida têm sido muito interessantes. Ainda que nem sempre eu acredite nisso.
A Amélia Pais escolheu e colocou um poema meu, no seu blog AO LONGE OS BARCOS DE FLORES. Não é a primeira vez que o faz, e eu sinto-me sempre muito honrado e orgulhoso. Não porque me ache merecedor, tanto mais que, como antigamente, deixei praticamente de escrever poemas ou contos, pelo menos com frequência. Mas como ela diz, a Amélia só põe on-line aquilo de que gosta, e eu sinto-me honrado e orgulhoso, e imensamente feliz, por uma pessoa que eu respeito tanto dar atenção e gostar de coisas que eu escrevi.
Nunca é demais salientar o trabalho da Amélia Pais na divulgação da literatura, através do blog como através de uma mailing list que mantém diaria e incansavelmente, como de outras iniciativas a que tem estado ligada. Mas hoje apetece-me agradecer-lhe copiando para aqui o poema de Camilo Pessanha que deu nome ao blog da Amélia e que foi um dos primeiros que ela publicou. Porque também foi Pessanha quem, como diz Pessoa pela voz de Amélia, me "ensinou a sentir veladamente".
Só, incessante, um som de flauta chora, Viúva, grácil, na escuridão tranquila, – Perdida voz que de entre as mais se exila, – Festões de som dissimulando a hora.
Na orgia, ao longe, que em clarões cintila E os lábios, branca, do carmim desflora... Só, incessante, um som de flauta chora, Viúva, grácil, na escuridão tranquila.
E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora, Cauta, detém. Só modulada trila A flauta flébil... Quem há-de remi-la? Quem sabe a dor que sem razão deplora?
Há coisa de vinte minutos, meia hora, ia a sair de casa e vi uma luz fixa, mortiça como uma lâmpada de vinte watts num vasto e desolado armazém, a cruzar o céu, direcção de sudoeste para nordeste, a uma velocidade constante e ao que me pareceu baixa altitude. Seria o mês de Agosto?
A edição de sexta-feira passada do Ípsilon, suplemento de arte e cultura do jornal Público, organizou um destacável com sugestões de discos e livros para os dias de férias de Verão. Nas páginas centrais, uma crónica da jornalista Alexandra Lucas Coelho, a propósito dos livros que nunca, ou ainda não lemos, invoca grandes nomes que fizeram história nos jornais portugueses nos anos oitenta: Fernando Assis Pacheco, Ernesto Sampaio, Torcato Sepúlveda, Eduardo Prado Coelho, Clara Ferreira Alves, António Mega Ferreira, Clara Pinto Correia, Miguel Esteves Cardoso, José Amaro Dionísio, Fátima Maldonado, Maria Regina Louro, Tereza Coelho, Eduardo Lourenço. Nomes que puseram a cultura na imprensa portuguesa e fizeram, ou ajudaram a fazer, nela um jornalismo de qualidade. Foram esses nomes, alguns deles, que me ensinaram a ler, e com os quais aprendi a gostar de jornais, de livros. Uma época de ouro da imprensa, que torna ainda mais miserável, por comparação, o jornalismo que hoje se pratica nos jornais. A essa notável, e carinhosamente saudosa, galeria de nomes, eu acrescentaria um dos poucos, um dos raros, que hoje em dia salvam os jornais da total mediocridade: o da Alexandra Lucas Coelho.
Fio Solto é o segundo livro que leio de Dennis Cooper, depois de purosexo.com (Sluts). Vá lá, desta vez a editora teve mais bom senso no título que adoptou para a tradução portuguesa da obra. Cooper não é um escritor vulgar, e isso confirma-se com este livro, mesmo se não houvesse mais informação. É diferente nos recursos que utiliza, no estilo, no escopo das suas obras, e evidentemente nos temas. São temas difíceis, perigosos, que procuram a margem mais radical, a margem da margem. Já era assim em The Sluts, e volta a ser neste My Loose Thread, que é o título original. Em termos breves, o livro segue os pensamentos e as acções de um adolescente que se encontra em pleno processo de crise identitária, nomeadamente quanto à sua orientação sexual, e mergulhado em profunda confusão afectiva, emocional e até moral. O resultado só pode ser, como está visto, desastroso. Uma das preocupações que interfere no modo como o narrador e os restantes protagonistas processam o real, prende-se com os conhecidos acontecimentos do Liceu de Colombine, e uma das matérias que interessa ao autor é sem dúvida a reflexão acerca dos factores que fazem os adolescentes mergulhar em espirais interiores de desregramento e violência que desembocam em catástrofes como as verificadas nesse e noutros estabelecimentos de ensino na América. Neste aspecto o livro evocou-me muito o filme que Gus Van Sant fez sobre o mesmo tema, Elephant. Aliás, não consegui evitar recorrer à memória das belas e intensas mas altamente perturbadoras imagens do filme de Sant, para construir o imaginário narrativo do livro de Cooper. Do ponto de vista formal, o livro, que não é muito fácil, organiza-se em trechos breves, sempre narrados do ponto de vista de Larry, o protagonista, a princípio bastante dispersos, mas que vão ganhando densidade e até coerência narrativa à medida que a crise parece mais eminente.
A editora Bico de Pena prossegue, com esta segunda obra de Dennis Cooper que edita, a publicar obras cujas temáticas apelam a sensibilidades mais específicas, nomeadamente na colecção Pena de Pavão, com livros de temas ligados à homossexualidade. Apesar de eu achar que haveria autores mais prioritários, suponho que haja ligações a determinados catálogos que justificam este plano de edição. Seja como for, através dos livros desta editora tenho conhecido novos autores, como Cooper, o espanhol Eduardo Mendicutti ou o português Pedro Gorski. Entretanto, numa outra colecção a Bico de Pena acaba de publicar mais um livro de Augusten Burroughs (é o segundo que edita, depois de Correndo com Tesouras), A Seco, uma memória amarga e divertida, servida por um sentido de humor negríssimo, dos anos de dependência alcoólica do autor e da sua esforçada desintoxicação. Sou suspeito, porque gosto muito da escrita do Augusten, e este Dry foi talvez o meu livro preferido dele, mas, for what is worth, recomendo vivamente esta leitura.
Fui finalmente ver a mais recente produção de Batman, The Dark Knight, realizada pela mesma equipa que já tinha feito o re-design das aventuras do morcego no anterior Batman Begins. Um Batman sombrio, atormentado, negro, ou não fosse o autor desta nova série o Chris Nolan, autor de dois filmes espectaculares, Memento e Insomnia. Esta nova aventura de Batman tem sido marcada essencialmente pela figura de Joker, e pelo desempenho de Heath Ledger naquele que foi o seu derradeiro papel no cinema. Percebe-se o efeito, sobretudo por causa do enorme choque que foi a morte do actor. No entanto, tentando ver para além deste efeito, não há dúvida de que se trata de uma excelente criação de Heath Ledger, a conseguir aquilo que me parecia o mais difícil: criar um boneco capaz de subsistir fora da comparação com a espantosa criação de Jack Nicholson para o papel do mesmo vilão, no filme de 89 realizado pelo Tim Burton. Não é possível comparar, eu acho que prefiro o Joker de Nicholson, mas isso é apenas porque ainda prefiro o Batman de Burton, que tinha um carácter mais ‘cartoonesco’ do que este Batman mais depressivo de Nolan. Mas preferência aparte, o facto é que o Joker de Heath Ledger consegue impor-se autonomamente como personagem. Para além disso é inegável que se trata de uma belíssima criação do malogrado actor. O que já me parece um erro é uma certa tendência para hipervalorizar o desempenho, dando-lhe uma profundidade que não tem. Não por demérito do actor, mas porque convém não esquecer, apesar de tudo, que estamos perante uma personagem de BD bastante unidimensional e não vale a pena pedir-lhe aquilo que ela não tem, seja em termos de espessura psicológica seja, e aqui é que a coisa fia mais fino, enquanto símbolo de uma determinada visão do mundo. Falo, como é óbvio, de uma tentativa de trazer o filme para o terreno da sociologia urbana pós-11 de Setembro, em que Joker é um terrorista (é assim que o apelidam durante boa parte do filme) que, por pura paranóia, introduz o caos catastrófico no seio da grande urbe da América. O desenho deste ambiente apocalíptico é uma das coisas mais interessantes do filme, mas é igualmente uma das mais cansativas, na minha opinião precisamente porque exige do dispositivo narrativo de base, ou seja, Batman e os seus companheiros e os seus vilões, mais do que eles têm para dar. Percebo a tentação de trazer Batman para um território mais sério, tornando-o não tanto um símbolo mas sobretudo um modo de representar uma visão catastrofista da América. O que já não tenho tanta a certeza é que Batman resista a essa transferência, e que continue a fazer muito sentido (ou mesmo algum) fora do universo narrativo para que foi criado. Tirando isso, e ainda os extenuantes mais de 150 minutos de duração, é um filme visual e narrativamente atraente, que confirma Batman como um dos heróis de Banda Desenhada cuja transposição para o cinema tem sido das mais ricas e entusiasmantes.
O innersmile faz hoje 7 anos. Confesso que não me dá muito jeito, porque não estou nada in the mood para fazer um post de aniversário muito puxado ao sentimento. Mas como é dia de balanço, vamos lá tentar alinhavar duas ou três coisas que me têm andado aqui a remoer.
A primeira é que este ano foi um bocado complicado para esta actividade de escrever um diário on-line. Basicamente porque exige tempo e disponibilidade mental (ócio), que foram coisas que não tive muito nestes últimos meses. O facto é que tenho trabalhado muito e muitas horas por dia. Não me queixo, porque gosto e estou muito envolvido e a atravessar um bom momento profissional, mas o certo é que depois não me sobra nem muito tempo nem energias para estar a escrever coisas com alguma cabeça e sobretudo com algum cuidado. Claro que não é grave, mas depois o chato é que começo a sentir uma espécie de obrigação em vir aqui pôr qualquer coisa, e não tenho nada escrito, nem ideias sobre o que escrever, e depois fico desanimado com o innersmile e apetece-me abandoná-lo. Mas depois lá tomo juízo e decido não stressar muito acerca da coisa e, olha, é como o comboio do oeste, llega quando llega. Mas seja como for, no me gusta ter um diário on-line se depois não me der gozo escrever e me sentir minimamente satisfeito com o que aqui vou escrevendo.
Há outra questão complicada, e que tem a ver com o espírito de comunidade e de que há qualquer coisa que liga ou pelo menos relaciona as pessoas que escrevem, que lêem e comentam. A comunidade de utilizadores do livejournal, claro, há muito que desapareceu. Embora ainda haja muita gente que mantenha páginas e que escreva ocasionalmente, a verdade é que se perdeu, há muito, qualquer espírito tertuliano ou comunitário (pelo menos na parte que me toca, claro). Por essa razão muitas vezes penso que já não faz sentido manter um journal aqui nesta plataforma, mas a verdade é que ainda assim prefiro estar aqui neste cantinho mais discreto e sossegado da blogoesfera, aqui entretido com as minhas coisinhas e bem acompanhado pelos friends que ainda vão resistindo. Nos últimos meses tenho-me chegado mais a um grupo de blogs que não estão no livejournal, e em relação aos quais já fiz aquela transição do virtual para o real. A verdade é que, nestes tempos mais recentes, é muito com o feedback desse pessoal que conto para me sentir mais acompanhado.
Consulto com uma certa frequência páginas e textos antigos do innersmile, não porque me deleite propriamente a ler o que escrevi, mas à procura de certas informações ou referências, ou mesmo só para confirmar se já escrevi, e o que é que disse, sobre determinado assunto. E nessas actividades arqueológicas nos arquivos do innersmile encontro comentários de pessoas que marcaram muito certos momentos deste diário, que o inspiraram ou foram seus interlocutores privilegiados, e que acabaram por desaparecer sem deixar rastro. Foram pessoas e encontros muito importantes e deixa-me uma certa tristeza tê-los perdido. Tenho pensado muito nisso e no que isso nos diz acerca deste meio dos blogs e das comunidades inter-náuticas. Por isso, este texto de aniversário vai para esses long time lost travelling companions.
Não tenho o atrevimento, e ainda menos a pretensão, de achar que este texto do Eduardo Pitta se refere a um par de comentários que eu e o Pinguim trocámos a propósito desta entrada aqui no innersmile. Mas a verdade é que, como me pareceu que ele me servia na perfeição, enfiei o barrete. Tenho um imenso respeito pela dimensão intelectual do EP, enquanto escritor e crítico literário, e sobretudo tenho muita simpatia e respeito por ele, por ser muito inteligente, por não ser provinciano, e por ser sensato. Pode parecer comezinho, mas são qualidades importantíssimas e cada vez mais raras. Mas desta vez discordo de Pitta, na apreciação que ele faz do livro Os Dias do Fim e nos argumentos que usa no referido texto, por três ordens de razões.
Em primeiro lugar porque acho que o livro de Ricardo Saavedra é, em rigor, um romance, e não uma reportagem. E não por uma questão de objectividade (que nem sequer é um requisito da reportagem), mas porque há uma efectiva ficcionalização do real, uma novelização. Claro que o livro segue de muito perto o desenrolar dos acontecimentos em Moçambique nos meses (ou melhor, nos dias) que mediaram entre o 25 de Abril e o 7 de Setembro, ou um pouco depois. E eventualmente até será esse o seu maior interesse. Mas não se trata de um puro colour by numbers, o livro não se limita a estabelecer uma matriz desses dias do fim, um esquema, um gráfico, uma cronologia e uma geografia. Pelo contrário, todo o livro é atravessado, e mediado, pelo romanesco, há personagens que são isso mesmo, o próprio narrador é sempre, e de forma assumida desde o prólogo do livro, uma personagem de ficção. Mesmo quando, repito, tudo parece não passar de um relato mais ou menos circunstanciado do desenrolar dos factos. O final do livro, por exemplo, é puro romance, com a descoberta da implicação de Samora no atentado que vitimou Mondlane e a ligação dessa descoberta à misteriosa morte do narrador. E é romance não porque isso seja mera ficção, mas porque é técnica narrativa, é peripécia, é o recurso utilizado para fechar o livro.
Por outro lado, referir que o livro é marcadamente ideológico não equivale a admitir que há um plano político, uma intenção de fazer política, que constitua uma dimensão autónoma da dimensão literária. Faz parte do pressuposto do livro, do seu cunho romanesco, que o narrador e protagonista viva os acontecimentos de certa maneira, com uma determinada perspectiva. Não é no discurso político que o livro assume uma dimensão ideológica. É na psicologia da personagem, no modo como ele adjectiva, a princípio mais subtilmente, depois de maneira cada vez mais sublinhada, as restantes personagens e os acontecimentos que se vão desenrolando.
Finalmente dizer que o livro tem uma marca ideológica não significa necessariamente qualificar, de forma mais ou menos primária, o livro como sendo de direita. Apesar de eu achar que a perspectiva do livro o é, inequivocamente. Não me parece haver contradição entre a denúncia do massacre de Wiyriamu e os acontecimentos do 7 de Setembro, de tal modo que uma equivaleria a uma perspectiva de esquerda e outra de direita. Porque o eixo que, na minha opinião, liga esses dois momentos do livro, sendo que a denúncia do massacre aparece logo no prólogo, como um dos pressupostos assumidos do que se vai contar no livro, é a denúncia do papel que as forças armadas foram assumindo quer em relação à guerra colonial quer na condução do período pós-revolução de Abril, particularmente no que toca ao destino dos territórios africanos sob administração colonial portuguesa. Ou seja, e na perspectiva do livro, foram as forças armadas portuguesas, e as chefias e os comandos militares, com acontecimentos como os de Wiriyamu e Vila Pery, que precipitaram a insustentabilidade da guerra e a inevitabilidade da revolução, e foram ainda elas que marcaram o destino e o modelo da descolonização, não só ao negociar directamente e sem condições, com os movimentos de libertação que mantinham a luta armada, de inspiração comunista, como ao varrer do terreno de jogo quaisquer veleidades de encontrar uma solução que não fosse essa.
Mas a marca ideológica do livro resulta ainda, na minha opinião, a outro nível: numa profunda contradição vivida pela população branca de Moçambique, que recusava a solução da entrega incondicional, por isso significar o seu fim, mas não conseguia propor no seu lugar qualquer outro modelo de solução política. Talvez porque aos brancos moçambicanos apenas interessasse manter o status quo, e ele era um beco sem saída: queriam continuar a ser portugueses mas recusavam Portugal. O que precipitou o 7 de Setembro foi, na tese do livro, o facto de andar uma carrinha de caixa aberta a passear-se pela baixa de Lourenço Marques arrastando pelo chão a bandeira portuguesa. O movimento que se desencadeou cantava o hino português e arvorava a bandeira portuguesa. Mas chamava-se a si próprio 'Moçambique Livre'. Percebe-se a contradição?
Como continuo a ter pouca vontade de ir ao cinema e não há assim muitos filmes que me obriguem a ir ao cinema (ok há o novo Batman), tenho passado pelo clube de vídeo, aproveito para ver filmes que perdi ou que não chegaram a ser exibidos em Coimbra, e que vou vendo nos intervalos da leitura, já que ando verdadeiramente obcecado com o livro que estou a ler. Eu sei que, como diz um amigo meu, já ninguém vai ao clube de vídeo, fazem-se downloads, mas hélàs!, eu sou um twenty century man.
Aproveitei assim para ver Into The Wild, o filme que Sean Penn fez baseado na história verídica de Christopher McCandless, um jovem licenciado, óptimo aluno e atleta da universidade, que decide abandonar família, estilo de vida e projectos para o futuro, e embrenhar-se no lado selvagem (o título em português) da natureza. Tratou-se, creio eu, e de acordo com o que li, mais de uma viagem de descoberta pessoal do que uma posição de rebeldia, perspectiva muito acentuada no filme e que acho que é o seu aspecto mais frágil. Porque aquilo em que o filme se ultrapassa é em transmitir-nos o enorme apelo da natureza que inebria Chris, e a nós espectadores, numa vertigem de imensidão e liberdade, mas que, por ser real e possível e natural, não é menos impossível e inatingível. Porque é esse sentimento, de uma profunda felicidade mas também de uma imensa tristeza, que o filme consegue instalar em nós, mas fá-lo com uma intensidade avassaladora. É impossível não nos deixarmos levar pela vertigem de Chris, e através dele sentirmos quase como nosso esse apelo pela natureza selvagem, o deslumbramento em que se abre a vida reduzida à sua função mais simples (ou mais natural); mas do mesmo modo também não podemos ficar impunes quando percebemos que não há saída para essa viagem libertadora, que o lugar que buscamos como nosso é tão impossível como o Alasca (ou como Ítaca?) O filme de Penn fez-me muito impressão, porque gostei muito dele (muito muito) mas porque me deixou triste, como quando temos uma prenda muito bonita para dar mas não temos a quem a oferecer. O filme, de certo modo, passa a ocupar aqui na minha videoteca interior, um lugar próximo de Le Grand Bleu, do Luc Besson, talvez porque ambos são sobre o abismo (tinha escrito ‘o meu abismo’), sobre o mesmo irresistível apelo do abismo, e a incapacidade de percebermos que o abismo e a morte são a mesma coisa, que o abismo ou a natureza selvagem são lugares dentro de nós que já não existem e que por isso a viagem para esses lugares é sempre sem retorno, tão letal quanto libertadora.
O outro filme que vi foi I’m Not There, de Todd Haynes, e que pretende ser uma não-biografia de Bob Dylan, uma espécie de mapa austral que, através de uma galeria de personagens criadas a partir de aspectos biográficos ou artísticos de Dylan, pretende fixar as marcas distintivas da personalidade criativa daquele que é um dos maiores escritores de canções populares que contam a América. O objectivo era, como se percebe, demasiado ambicioso e as oportunidades de desastre grandes. Infelizmente confirmam-se todas, e o filme resulta num objecto pretensioso e artificial, desprovida de qualquer tensão dramática, que nem sequer à grande música de Dylan faz jus. Compare-se com o documentário de Scorsese No Direction Home, para perceber o que falha e o que falta ao filme de Haynes. Para além do esforço que os óptimos actores fazem para insuflar um pouco de alma nestes proto-personagens, o único momento verdadeiramente bom do filme surgiu no genérico, na parte final, quando se ouve uma versão de Knocking on Heavens Door por Antony and The Johnsons, e que me pôs a suspirar pela respectiva banda sonora.
Recado para a Anie: agora que vi o filme sinto-me ainda mais contente e orgulhoso por te teres lembrado de mim e de mo recomendar.
Passou hoje no telejornal da RTP uma reportagem sobre as cerimónias fúnebres de três soldados pára-quedistas mortos em combate na Guiné há 35 anos. Graças aos esforços de familiares e de associações de antigos soldados, os restos mortais dos páras foram identificados e resgatados para Portugal. Depois da cerimónia na Escola de Tancos seguiram-se os funerais para as suas terras. A assistir às cerimónias fúnebres e a acompanhar os funerais privados, estavam muito antigos camaradas dos três páras, da Companhia 121 a que pertenciam. Cinquentões, grisalhos, as barrigas a esticarem as t-shirts, as boinas verdes nas cabeças ou, mais timidamente, enroladas no bolso das calças.
José Lourenço, António Vitoriano e Manuel Peixoto perderam a vida numa emboscada em Guidage, no norte da Guiné-Bissau, em 23 de Maio de 1973 e hoje regressaram a casa. Dois deles tinham 20 anos e o outro 19. Por extenso: dezanove anos de idade.
O innersmile errou! Ah, há tanto tempo eu tinha vontade de escrever esta frase. A equipa da Com'Out deixou o seguinte comentário ao texto que eu pus aqui há dias sobre o lançamento do primeiro número da nova revista portuguesa dedicada aos temas LGBT:
«Bom dia, Para os mais curiosos, e para que a informação seja correcta, dos artigos publicados na Com'Out apenas um é de agência. Os restantes foram feitos pela redacção e por colaboradores. Aceitamos todas as críticas de forma a melhorar as edições seguintes, mas já agora fica reposta a verdade. Obrigado a todos. A equipa da Com'Out»
Fica assim salvaguardada a dignidade dos factos. E os votos de que a Com'Out se consiga afirmar, e que seja sempre cada vez melhor.
Aproveito o ensejo (outra...) para chamar a atenção para um texto que Eduardo Pitta publicou no seu blog (e no Ipsílon do Público) sobre o livro Os Dias do Fim, de Ricardo Saavedra, e de que falei aqui no innersmile há uns dias.
Fazem hoje anos de casados. Cinquenta e quatro. É uma ocasião bonita e comovente, mas não é muito alegre. As transformações mais temidas e irreversíveis parecem estar em marcha. E ainda que sejam inevitáveis, são na mesma assustadoras. Estou sempre a repetir para mim próprio que o importante é aproveitar enquanto há, carpe diem e essas coisas, mas não consigo deixar de ter muito medo. Medo do sofrimento, da angústia, da impotência. E medo também de que a única saída para a dor seja a solidão.
Que delícia o concerto de Caetano Veloso ontem na Praça Marquês de Pombal, em Aveiro. A noite estava no ponto adequado, a praça rectangular e bonita, cheia mas sem abarrotar, o som competente. Caetano sozinho em palco com o seu violão, durante perto de duas horas, a desfiar canções e tesouros. Descontraído e bem disposto, a ceder naquelas canções incontornáveis para o público, e a entreter-se com as mais recentes, com uma inédita, e com as canções dos outros, das mais esperadas às mais surpreendentes. Por exemplo, a cantar La Mer, a primeira vez que o ouço a cantar em francês. Caetano abrandou um pouco o ritmo de cançoneta de Charles Trenet, e deu-lhe mais lirismo e melancolia. No fim da canção, disse que gostaria de a cantar de novo e repetiu-a. Noutro momento, cantou uma canção dedicada à Baía e no fim esclareceu que a canção não era da autoria dele mas de Ary Barroso e, para ilustrar a grandeza do compositor tocou e cantou pequeninos trechos dos clássicos absolutos Brasil e Baixa do Sapateiro. Um momento inesperado foi quando, já depois de cantar Menino do Rio, Caetano afirmou que tinha gostado muito da palavra ‘ria’, por ser feminino, e que a ideia de fazer uma canção sobre ‘a menina da ria’ era irrecusável e ficava desde já prometida. E o inesperado da coisa é que foi tão espontâneo que fiquei convencido que a ideia lhe tinha passado naquele mesmo momento pela cabeça. Cantou algumas das minhas canções preferidas, como Sampa, mas para mim o momento mais alto do concerto foi a interpretação de Terra, que é uma canção fabulosa, que Caetano cantou de forma extremamente doce, mesmo quando sacava precursões do violão, e com a ajuda do público no refrão. Outro momento particularmente bonito foi a versão do fado Confesso, que Caetano começa em ritmo de samba e termina em tom de fado, e que sendo um dos meus fados preferidos, na voz e na interpretação de Caetano fica ainda mais bonito e emotivo. Apenas no encore surgiram duas canções de Cê, e mesmo assim em versão abreviada, mas que soaram muito bem na transposição para o violão. Em suma, e apesar de eu já ter assistido incontáveis vezes a shows do Caetano, este foi mesmo muito especial e seguramente inesquecível.
Onde é que um homem pode guardar os seus segredos? Vejo-a na manhã mais fria, coberta de neblina, como se fosse um espelho em chamas, chamando os mortos. É funda como a alma, e é por isso que cabem lá todos os segredos. Muitas vezes me sento numa das escarpas de terra, coisa que ficou das obras, antigamente, e hoje é como se a natureza, a própria barragem, tivesse adoptado essa geografia desfigurada. Ali fico muitas horas, olhando a água como se fosse aço, e pensando em todos os segredos que estão afundados no bojo escuro e lamacento. Há sonhos, concerteza, brincadeiras de rapazes, promessas das raparigas, um carro que se despistou quando alguém fugia, e armas, muitas, que é fácil parar lá em cima, na ponte, e atirá-las à agua embrulhadas em panos atados com um baraço. Nessas horas longas em que, parado, olho a superfície das águas, vêm-me à lembrança os segredos que eu trago sempre comigo, no bolso de dentro do peito, a pesarem-me na nuca, a estrangularem-me a garganta. Penso como seria fácil metê-los na mala do carro, fazê-lo descer pelo caminho de terra batida, e guardá-los aqui neste cofre de ferro, escondidos pelo enganador reflexo da água.